MITCHELL S. JACKSON: ENTREVISTA

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Desenho Estrutural da Matemática de Sobrevivência (Survival Math): Notas sobre uma Família Tradicional Americana

por Randall Horton

Segundo a crítica literária, poeta, e professora Stephanie Burt, o livro intitulado Memória: Uma Introdução (escrito pelo acadêmico G. Thomas Couser em 2011), defende que “escrevemos uma espécie de diário”, usamos esse gênero, não tanto para detalhes ou estilo, mas para “ à sabedoria e autoconhecimento,” e  para que o personagem principal, que é sempre o autor, tenha aprendido algo que é, naturalmente, a verdade.” No entanto, eu gostaria de acrescentar também que o desenho estrutural por dentro de um livro de memórias, o andaime da narrativa, e a importância da apresentação, são os fatos mais importantes para a eficácia de um livro de memórias, especialmente os que se dividem  entre o sofrimento e a redenção. Eu não sei se o sofrimento é necessário para alcançar a redenção, mas para ser redimido, a pessoa deve ter feito algo para criar uma necessidade para que a redenção seja essencial. Assim, a forma que a história é contada pode ter um impacto enorme no leitor.

A ideia é que as falhas ou fracassos que o leitor entende como resultado de certas ações feitas pelo protagonista, virarem conquistas quando essas ações são invertidas para o bem maior. Eu posso afirmar que: Eu acredito que o passado fornece informação para o futuro. No meu próprio trabalho que é, naturalmente, influenciado por diversas disciplinas, incluindo a poesia, pode destacar a interrupção, compressão, metáfora prolongada, anáfora, e aliteração com frequência. Ainda existe, também, a musicalidade, particularmente o jazz como um verbo, que permite a liberdade e a exploração, e para não mencionar o inquérito teórico que, se incorporado corretamente, pode abrir vários caminhos para a descoberta. Eu também trabalho sob os auspícios para que um livro de memórias seja eficaz, o escritor deve, não, o escritor precisa criar uma experiência visual/vívida que abrange tudo.

Na minha opinião é uma escolha pessoal, mas estou mais inclinado a gravitar para o livro de memória que ressuscita tudo que está escondido em torno do “Eu.” Sem dúvida, eu trabalho nos ecos da afirmação de Amiri Baraka. Suas notas de capa para The New Wave in Jazz, dizem que é necessário encontrar si mesmo e, depois, matá-lo. De qual o escritor e teorista Nathaniel Mackey responde: “Uma das coisas que ele [Baraka] queria dizer com isso era que durante a trajetória de  improvisação para chegar ao ponto onde você pode tocar a música livremente, você tem que encontrar si mesmo. E para citar também o poeta e o teorista Fred Moten “O momento da morte é também o momento da individualização.” Em outras palavras, a assimilação da memória deixada numa entidade completa que esteja atual. Você tem que se encontrar no seu próprio som. Ou, novamente, como Baraka afirmou: como você soa?

Pela definição (eu me estremeço diante desse termo), o livro de memória representa uma época e lugares particulares na vida do narrador. Eis o que a maioria dos leitores se supõe quando abrem um livro de memórias. Para mim, os livros de memórias mais gratificantes tiram o “eu” fora do contexto e lhe entrega muito mais. Cada escritor de memórias deve desafiar si mesmo com a seguinte pergunta: Como “eu” posso fazer tudo em torno do “eu” relevante dentro do contexto [do meu] próprio trabalho, que eu tentei realizar no Hook: Um livro de Memória que enfatiza a prosa poética, entradas de jornal, as epístolas, as lembranças das cartas trocadas com Lxxxx, quem foi encarcerado, junto com o engajamento na teoria crítica de Jacques Derrida e Immanuel Kant.

Recentemente alguém me pediu para entrevistar o escritor Mitchell S. Jackson sobre seu livro de memória, Matemática de Sobrevivência: Notas sobre uma Família  Tradicional.Americana Este pedido ocorreu, provavelmente, por causa das nossas experiências de vida similares—encarceramento, o tráfico e, principalmente, a reconfiguração do eu. Eu fiquei pensando, depois de ler sua novela de estreia, The Residue Years (Os Anos do Resíduo), que finalmente nós temos um livro que destaca, com precisão, os efeitos da nevasca branca (se referindo ao crack) da década de 80 e os resquícios que ela deixou para a geração seguinte na década de 90. Sendo um participante ativo naquela época da explosão do crack nos anos 80, tendo traficado e sido preso enquanto estava nas garras da dependência química e residido na penitenciária estadual como preso #289-128, eu pensei que o retrato expressivo de Jackson, mostrado através do seu protagonista, Champ, oferecesse um nível de humanidade que é frequentemente perdido no jargão da justiça criminal. Matemática de Sobrevivência, em muitos aspectos, se constrói através dessa humanidade com seu desenho estrutural e atenção ao detalhe.

A abertura “Querido Markus” ecoa “Meu Calabouço Estremeceu” no “The Fire Next Time,” uma epístola direcionada ao sobrinho de James Baldwin. Com sua epístola de abertura no Matemática de Sobrevivência, Jackson oferece uma base—o registro histórico inegável dos Afro-Americanos em Portland, Oregon. A opressão criada pela construção de raça nesta cidade é fundamental para compreender as condições sociais que muitos cidadãos tiveram que enfrentar enquanto cresciam num lugar onde eles eram, de fato, indesejados. O uso dessas camadas serve como informação útil ao leitor. É apenas um de muitos estratos por dentro do desenho estrutural, o livro, também, oferece uma investigação profunda sobre homens, a paternidade, mal-entendimentos sobre a masculinidade, e um novo despertar que ocorre ao confrontar as fragilidades do passado de Jackson. Cada seção de Matemática de Sobrevivência é aterrada num contexto histórico antes que as experiências pessoais estejam exploradas, oferecendo a brevidade e profundidade, dando ao leitor o contexto antes do desdobramento da próxima narrativa. 

MITCHELL JACKSON:

Foto: John Ricard

Um dos aspectos fundamentais do livro é a sobrevivência. São revelações nítidas sobre os homens associados ao passado, presente, e talvez o futuro de Jackson. Os arquivos de Jackson fornecem elementos de espetáculo e espectador através de uma língua lírica, canalizando o que foi esquecido, seus atos vinculados à causa e efeito. Também, eu afirmaria que estes arquivos são o que o poeta Greg Pardlo se refere a totens, pedaços individuais que prendem o manuscrito. Existem variações entre os arquivos: vida em gangue, depressão mental, prisão e tiroteios, representam alguns desses arquivos temáticos. Ao oferecer um espaço para aqueles que, talvez, não tem oportunidades para falar para si mesmo, estes arquivos ajudam na criação da magia e o tom do Matemática de Sobrevivência. Pode acreditar que a literatura em Matemática de Sobrevivência é nascida e reconstruída dentro de um clima social criado por Jackson, baseado em uma série de reações e [um ato] ou ações, influenciado pela memória, ou a dicotomia dos risos e dor que a memória se encaixa. O Matemática de Sobrevivência de Jackson faz referência a um corpo central de experiências culturais através da memória. Reconfigura o que foi apagado em algo que pode ser visto, mesmo que esse corpo seja mercantilizado para a causa da modernidade.

Matemática de Sobrevivência poderia se comparar a um rift de jazz—uma língua e narrativa que se procuram para quebrar seus limites físicos. Há uma busca para o “inesperado” ou desconhecido. Matemática de Sobrevivência é, com certeza, o resíduo da interação social e a exploração do ser. Através de uma memória estruturada de forma alternativa, Jackson cria uma língua representativa e “uma experiência humana vivida” que seja consciente, representando o passado, presente e futuro. Dito isso, vamos começar a conversa.

Randall Horton (RH):

Em primeiro lugar, eu quero lhe agradecer por escrever Matemática de Sobrevivência. Eu acho o título muito interessante, em relação a palavra matemática, tem que se tornar um mestre para sobreviver o jogo do tráfico de drogas e a probabilidade de evitar ou terminar na cadeia. Antes de nós irmos a fundo em alguns aspectos do livro, por favor, fale um pouquinho sobre a sua decisão de dar esse título ao livro?

Mitchell Jackson (MJ): O livro ia ser intitulado “Head Down, Palm Up” no início, que é o título de um dos textos. Eu estava pensando em tornar isso num livro completo. Mas logo depois eu tive uma reunião com minha agente e o chefe dela sugeriu que eu re-intitulasse a coleção Matemática de Sobrevivência, que também era um ensaio do manuscrito. Isso realmente mudou minha perspectiva. Comecei a olhar para tudo o que havia escrito através das lentes da sobrevivência, imaginando o que mais eu precisava para me aprofundar na exploração de como persistimos contra a opressão. Não muito tempo depois, desenvolvi a ideia para os arquivos dos sobreviventes. Eu sabia que se eu falasse sobre sobrevivência, precisava ser muito maior do que minha história pessoal.

O subtítulo “Notas Sobre uma Família Tradicional Americana” veio quando o manuscrito estava em um estágio muito posterior. Eu queria enfatizar a ‘família americana tradicional’, porque os afro americanos estão constantemente tendo sua americanidade questionada ou então agredida e executada de maneiras explícitas e tácitas. Chamar-nos de uma família totalmente americana é um desafio direto à violência de nos despojar daquilo que merecemos. Não somos apenas americanos, mas somos também os mais americanos. Queria deixar isso claro.

RH: É muito verdadeiro e é bom saber. Uma das coisas de que mais aprecio a Matemática de Sobrevivência é a estrutura, a organização das narrativas, a mescla do histórico, o olhar jornalístico e sem mencionar os arquivos dos sobreviventes que ajudam na ancoragem do livro, sobre o qual falaremos mais adiante. Dito isso, sempre insisti que, embora esses livros incorporem memória, a eficácia de recontar essas memórias depende de quão bem o autor é capaz de levar as histórias paralelas para a frente para interagir com a narrativa principal. Eu estava esperando que você pudesse falar sobre como você decidiu a estrutura do livro? O que era mais importante a esse respeito.

MJ: No início, minha editora e eu tivemos uma reunião em que conversamos sobre estrutura. Ela começou a fazer perguntas sobre. Acho que naquele momento não estava decidido sobre o número de ensaios que escreveria. Por causa disso, foi difícil descobrir como eu os agruparia. Em algum momento da reunião, ocorreu-me que eu poderia organizar os ensaios para responder a algumas dessas perguntas-chave. Na mesma época, decidi terminar uma carta para minha filha. Mas também, na época, a primeira dissertação não era epistolar. Mais tarde, decidi escrever uma carta para o primeiro homem negro (registrado) a pisar no Oregon. Percebi que estava escrevendo cartas para o meu passado e futuro e que parecia uma maneira adequada de começar e terminar. Eu amo finais que são recursivos para a abertura. A última coisa que fiz foi decidir adicionar os centos (poemas) dos documentos americanos. Como eu ainda queria reunir cada seção com uma pergunta, fiz dessas perguntas uma linha titular nos poemas. O mais importante era ter um título que chegasse ao núcleo do projeto geral, e também descobrir para onde as peças iriam. Alguns dos ensaios são muito mais longos que os outros, então eu os coloquei em uma seção sozinha, o que significa que existem apenas dois deles, enquanto há três ensaios nas outras seções. Fiz isso não apenas para me permitir um prólogo e um epílogo, mas também porque pensei que era o caminho para tornar a experiência de leitura mais consistente.

RH: Aqui está algo que eu quero chamar sua atenção. De muitas maneiras, os homens mais velhos que você menciona na Matemática de Sobrevivência estão mais perto da minha idade. Eu cresci com os mesmos princípios ideológicos que esses homens adotaram e transmitiram. Eu realmente admiro a maneira como você lida com suas falhas e deficiências em “A Escala”, algo que me aproximou do trabalho, principalmente porque ao escrever minhas próprias memórias, era algo que eu precisava resolver. Quão difícil foi escrever sobre suas falhas em termos de relacionamento com as mulheres? Por fim, que mensagem você deseja estabelecer com o leitor?

MJ: Esse ensaio “The Scale” foi a coisa mais difícil que escrevi. Demorou mais tempo para revisar. Anos atrás, li um ensaio na Esquire intitulado “Why I Cheat”, escrito por um homem anônimo. Fiquei impressionado com a franqueza. Mas também critiquei que ele tivesse escolhido não se identificar. Ainda assim, eu sabia que tinha ideologias semelhantes às dele. Desafiei-me a investigar esse pensamento e decidi que, se eu fosse fazer isso, teria que me identificar. Uma das deficiências desse ensaio da Esquire foi que o autor não tentou contextualizar sua ética. Por ter tentado historicizar todos os outros assuntos sobre os quais escrevi no que se tornou o livro, eu sabia que teria que fazer o mesmo pela mulherengo que estava criticando em “The Scale”. Eu queria ver se conseguia encontrar as raízes do pensamento. Quanto mais eu pesquisava, mais eu determinava que os abusos emocionais que os homens ao longo da história haviam enfrentado, que eu havia tratado em meus próprios relacionamentos românticos, eram um tipo de comportamento criminoso. Não no tipo de crime estatal, mas de uma maneira que viola violentamente o contrato humano. Isso me levou a estruturar o ensaio como um perfil criminal. “Vitimologia” é uma das seções padrão de um perfil criminal. Esse é um perfil completo da vítima: quem eles eram, o que aconteceu durante o crime e assim por diante. Enquanto escrevia sobre a mulher que vitimizei, percebi que estava privilegiando minhas avaliações de uma maneira injusta. Então me ocorreu, depois de muitas revisões, que eu precisava convidá-los para falar. Então eu fiz. Alguns deles recusaram, mas fiquei agradecido por alguns dizerem que sim. Para ser totalmente real, eu me preocupei com esse ensaio. Não há como sair limpo no final. Mas também sabia que não estava sozinho e que me submeter a interrogatórios sérios poderia ser útil para outra pessoa que, por qualquer motivo, não pudesse ou não faria o mesmo.

RH: Você está correto. Não temos que sair limpos e ilesos. Mas eu aprecio você mantendo-o 100%. Mais uma vez, ao ler a Matemática de Sobrevivência, não pude deixar de ficar sobrecarregado de culpa e vergonha. Eu estava envolvido com um traficante de drogas que usava cocaína para um cartel de drogas durante os anos 80 e início dos anos 90. Lembro-me claramente de influenciar a decisão do garoto de 14 e 15 anos de idade de entrar no jogo das drogas e vender crack nas ruas de Washington, DC e Birmingham, Alabama. Mitch, você pode falar sobre a atração psicológica, a pressão social de uma sociedade capitalista que produz a necessidade de superar suas circunstâncias através da venda de uma droga?

MJ: Eu acho que é uma pressão social, mas que o cara comum não a experimenta dessa maneira. O cara médio é míope. Ele vê o traficante no quarteirão ou no passeio pela avenida, no clube ou no parque, o tempo todo ostentando novas coisas brilhantes, e ele se torna cobiçoso. Ou então ele cresce com traficantes e tem esse modo de vida normalizado. Eu acho que tive as duas coisas. Mas eu sempre critiquei a vida porque, se você estiver olhando, verá simultaneamente os presentes e as maldições. Você verá um cara se saindo mal e ouvirá histórias sobre como ele fazia do jeito que fazia uma década atrás. Meu tio Henry é um excelente exemplo disso. De milionário a anos de ganhar alguns dólares juntos. Em The Residue Years (Os Anos do Resíduo), um dos traficantes diz: para parafrasear a mim mesmo, você tem alguns momentos da vida alta e todo o resto são os anos de resíduo. Então, sim, para uma criança de 14 anos de idade, a vida parece absolutamente refulgente. Mas se você pudesse mostrar a eles como é a maioria dos traficantes de 40, 50 ou 60 ano, que pode parecer irreal para eles. Eu acho que a maioria deles diria que não é isso que eles querem para si mesmos. Mas também temos que convencê-los de que eles irão sobreviver até os 40, 50 e 60 anos de idade, o que pode parecer algo improvável. Espero poder fazer algo de bom no mundo, mas você e eu sabemos que tudo é sistêmico; portanto, na maioria das vezes, as rodas continuam girando.

RH: Sim, a mãe de uma amiga minha de Miami sempre costumava falar pra nós que queríamos ser traficantes que “é banquete ou é fome,  é um ou outro, sem meio termos.” Ela entendeu que sempre há uma data de validade. Eu nunca esqueci isso porque era verdade. Agora voltando ao seu trabalho. Ao ler certos capítulos, pensei que eles pareciam ficção, e, para mim, se o autor puder dar vida à narrativa, eu me envolvo. Eu pensei que você fez isso bem. Você também parece ter um ouvido de poeta. Qual a importância da influência da poesia na escrita de sua prosa?

MJ: Eu amo a citação de Baudelaire: “Seja sempre um poeta mesmo em prosa”. Se não há música na prosa, não quero lê-la. Também não quero escrever. Na verdade, nem vou escrever. Leio muito mais poesia do que prosa. Adoro a compressão da poesia, mas também a atenção à dicção, à acústica, à estrutura. Digo aos meus alunos que o melhor escritor de não-ficção seria alguém que veio da ficção e se tornou fluente em todas as convenções da ficção, poderia escrever cenas e descrição, entender narrativa e conflito, escrever diálogo com subtexto etc. Esse escritor de ficção também precisaria de uma facilidade com a poética: com aliteração, cadência, sintaxe, imagens … Para mim, esse é o ponto ideal: o conjunto de habilidades de um escritor de ficção e de um poeta, que não abandonará a poesia da história ou da ideia. Se você colocar algumas habilidades de pesquisa, a ousadia de dizer a verdade e a persistência em continuar procurando por ela, bem, você terá um excelente escritor de não-ficção.

RH: Acredite ou não, digo aos meus alunos as mesmas coisas em termos de poesia e sua influência na prosa. Então, eu concordo totalmente. E agora trocando de marcha, há algo que eu gostaria de mencionar. De muitas maneiras, os traficantes e chefões que associei à ajuda para criar muitos jovens Mitchell Jacksons. Também fui assaltado, atingido, disparado, etc. Qual a importância do jogo de drogas para você antes de ir para a prisão? Em algum momento você conseguiu sair de si mesmo e entender a devastação que estava causando a si mesmo e à comunidade negra?

MJ: É determinante sair da pessoa e criticar o que está possibilitando sua sobrevivência e, em alguns casos, prosperar. Por causa disso, fiquei muito bom em ignorar minha consciência. Foi útil que, em um determinado momento, eu não estivesse vendendo drogas para as pessoas que as usavam, mas para vendê-las. Eu não estava de pé em uma esquina ou sentado em uma casa de drogas e, portanto, forçado a ver em primeira mão os efeitos de minhas ações. Atire, se você for bem-sucedido, não precisa nem ver ou tocar na droga – isso nunca foi eu, a propósito – o que, com certeza, facilita a persistência. Além disso, se você tiver dinheiro suficiente, poderá fazer coisas para amenizar sua culpa. Eu conhecia um cara que entregaria notas de 100 dólares a pessoas sem-teto. Eu costumava ajudar as pessoas a pagar aluguel, comprar roupas da escola, pagar mensalidades. Todas essas coisas serviram como suborno para minha consciência. Mas vou lhe dizer uma coisa: quando minha mãe me pediu um pouco de droga, eu não pude ignorar isso. Eu estava tipo, caramba, como cheguei aqui.

RH: Porra, esse é o verdadeiro irmão, e eu aprecio você mantendo-o cem. Ok, então, voltando à minha declaração anterior sobre como fazer as memórias não apenas sobre o eu, mas interativas – esses arquivos de sobreviventes são dourados e fornecem outra camada para a Sobrevivência. Cada um desses perfis me lembrava alguém com quem eu havia cruzado. Quão importante foi para você contar suas narrativas?

MJ: Foi muito importante para mim dar uma visão mais ampla da sobrevivência no local em que cresci. É como escrever a história do lar. Esses caras não são apenas manos nos arquivos, são familiares – irmãos, primos, tios, avô, sobrinho – então, em um sentido muito real, eu também estava escrevendo uma história familiar. Eu queria destacar o que eles sofreram, mas também destacar a resiliência necessária para chegar ao outro lado desses testes. Quero dizer, eles estavam vivos e livres quando conversamos, e as coisas poderiam ter funcionado diferente. Claro, também quero que as histórias deles substituam os cadinhos que os homens negros enfrentam em outros lugares. Tenho certeza de que não estamos sozinhos nas experiências.

RH: Eu tenho que fazer esta pergunta. Quando você andava por aí com assassinos e aqueles a serem mortos, quando cozinhava drogas, tentando esticá-lo com bicarbonato de sódio ou algum outro agente, quando andava com um monte de homens, a quem se lhes dissesse que estavam indo ser escritor, pode ter roubado você no local, você já se imaginou escritor e na posição em que está hoje?

MJ: Eu era estudante o tempo todo que vendia drogas, então acho que não seria tão difícil imaginar se tornar um escritor. E, no entanto, nunca imaginei. Eu ia receber uma bolsa de basquete D1, talvez jogar no exterior depois, e descobrir a partir daí. Quanto ao que meus patnas (cumpadi) ou caras com quem lidei naqueles dias teriam feito. Eu não acho que eles me roubariam. Ou até me menosprezou. Eu acho que eles podem até me encorajar da maneira que eles sabiam. Porque ninguém realmente quer vender maconha ou ser cafetão ou carregar uma pistola. Ninguém realmente quer sair de casa de cabeça cheia, porque não sabe se alguém está vindo para roubá-los. Eu vejo alguns desses caras agora e eles estão felizes por mim, mesmo que não saibam que tipo de vida eu tenho, mesmo que eles nunca leiam uma palavra e escrevam além de uma publicação nas mídias sociais. Eles estão felizes porque acreditam que eu consegui. E consegui entender que com isso queremos dizer que não vou para a cadeia por distribuição de um narcótico. Mas também nunca consigo entender o assunto porque me importo, ou seja, se eles não são livres (livres para fazer a vida por si mesmos), então não sou totalmente livre.

RH: Não, eu entendo totalmente. É claro, eu estava brincando sobre a parte do roubo, e entendo totalmente o que você está dizendo em termos de piadas felizes por você, acreditando que você “conseguiu escapar”. E, ao encerrarmos esta entrevista, preciso dizer que amo muito a matemática de sobrevivência. As camadas fornecem muito contexto para um ótimo livro. No entanto, não quero derramar todos os grãos e abrir mão dos presentes. Quero que os leitores sejam atraídos e comprem o livro e deleitem-se com a experiência, a história, como o encarceramento nem sempre precisa ser um ponto final. Com isso dito, o que você espera que o leitor casual retire deste livro e que conversas nacionais você espera que comece?

MJ: Há uma frase no ensaio / carta de abertura em que digo que estou escrevendo para “manter vivo o registro de onde morávamos e como vivíamos e pelo que vivemos e morremos”. Isso resume a teia do livro. O “nós” inclui minha família, amigos e negros do Oregon, mas também negros de todo o país. Não sei se vou iniciar alguma conversa, mas quero fazer parte dela. Mas também quero adiar a linguagem do discurso comum – encarceramento em massa, o complexo industrial penitenciário, o canal da escola para prisão – e entrar em linguagens e histórias que não nos permitem ofuscar os danos. Não vejo encarceramento em massa, mas vejo meu querido que voltou para casa aos 17 anos por um assassinato ou meus primos que passaram anos e anos em instalações estaduais. Não vejo o complexo industrial da prisão, mas posso descrever para você como foi atravessar minha antiga prisão com uma equipe de filmagem atrás de mim e depois conversar com um superintendente que era guarda durante meu tempo lá. Não consigo ver o canal da escola até a prisão, mas posso contar histórias sobre as crianças do meu programa pós-escolar Book Up que não se voluntariam para ler porque são leitores tão pobres. É importante olhar para as coisas de uma ampla perspectiva e ter uma linguagem que aponte para sua amplitude; é crucial apreender os sistemas que promovem os problemas, mas nunca quero perder de vista os indivíduos que sentem agudamente o que os outros têm o luxo de tratar como principalmente dados e teoria. Então, acho que quero que a Matemática de Sobrevivência nos lembre que nunca devemos perder de vista o pessoal em nossas considerações sobre o sistêmico.

Randall Horton é o ganhador do Prêmio Gwendolyn Brooks de Poesia, o Prêmio Bea Gonzalez de Poesia, uma Bolsa Nacional de Artes da Literatura e, mais recentemente, o Prêmio GLCA de Novos Escritores para Não-ficção Criativa. Ele é editor sênior da Willow Books, uma editora literária dedicada a promover diversas vozes na indústria editorial.

Seus trabalhos incluem as coleções de poesia The Definition of Place (2006), The Lingua France da Nona Rua (2009), ambas com Main Street Ragand Pitch Dark Anarchy (Triquarterly / Northwestern University Press, 2013). Hook: A Memoir (2015) é publicado pela Augury Books.

Como professor associado de inglês na Universidade de New Haven, o Sr. Horton é a única pessoa nos Estados Unidos com sete condenações por crime e posse acadêmica.

Ele atua no Comitê do Programa de Escrita Prisional da PEN America e é membro do grupo de desempenho experimental Heroes Are Gang Leaders, que já se apresentou em locais importantes e festivais de jazz em todo o mundo.